Cada caso de assassinato, principalmente quando envolve requintes de crueldade, fascina a população. Associado às classes mais baixas, o interesse pela violência é, na verdade, generalizado. Na ficção ou no jornalismo sensacionalista, a violação de limites psicológicos e físicos (violência) jamais alcança a dimensão da experiência propriamente dita.
A maior virtude do filme Os Inquilinos, do diretor Sérgio Bianchi, é relatar uma violência bem próxima daquela vivenciada por diversas pessoas. Uma espécie de opressão invisível, a sensação de que os muros criados podem nos emparedar e, no caso em perspectiva, a materialização, em vermelho viscoso, do absurdo que ela representa.
(...) No entanto, convém refletir: o fascínio pela violência, (...), além de alienar sobre a nossa condição e a nossa posição, também envolvida na sustentação do establishment, não seria idêntico àquele de quem se prostra diante do massacre, com olhos assustados e brilhantes, numa espécie de êxtase quase incontido?
Sobre cinema & sobre o cinema nacional (rapidamente)
Convém dizer: justamente por reproduzir, de modo tragicômico, questões da indústria cinematográfica dominante, a maior parte do que é posto no cinema nacional se torna inofensiva. (...) Podemos usar um modelo para reafirmar ou rechaçar. De qualquer forma, negação e afirmação são dois modos de validar, de reconhecer:
Fascínio pela violência; Aversão pelo estrangeiro; Materialismo crônico; Pobreza estética
O elemento diferente é a quase ausência do espetacular, que apenas recentemente tem se mostrado uma opção viável.
Ressalva: Respeito o trabalho do Sérgio Bianchi. Mas acredito nisto: ele não transborda do minúsculo quadrado ideológico que prende, até esmigalhar, a expansão e o aprofundamento do que deveria ser levado às últimas consequências: a arte.
Para exemplificar o que digo, menciono uma das pouquíssimas exceções: Glauber Rocha. Este sim fugiu às regras. E o interesse dele era o mesmo da maioria de nossos cineastas: a realidade brasileira. Que não se restringia às periferias cariocas e paulistanas e, mais do que isso, não se restringia ao retrato da pobreza, em todos os níveis. Ao contrário, ele mostrava uma riqueza que independe de investimentos milionários e, ao mesmo tempo, não precisa fugir do debate sobre a predominância de condições sociais constrangedoras, relações de poder constrangedoras etc. A beleza estupenda de suas imagens não é uma beleza meramente plástica e não é uma beleza inocente: porque mergulha em um transe que, além de político, é ritual. Filmes como Barravento e Deus e o Diabo na Terra do Sol revelam, além de tudo, nuances e características peculiares de cada personagem, de cada paisagem, que deixam de ser, portanto, representações de objetos catalogados em categorias arbitrárias, tornam-se expressões da espécie de vida que pode haver quando tudo massacra. Vidas cheias de pulsação e dança, de forças maiores do que a necessidade de sobreviver e lutar contra inimigos, que, embora não consigam arrancar essa cabeça bestial do centro de suas relações, são mais do que números e rótulos, são complexas, respeitadas, substanciosas. Para a arte, convém que o humano seja expandido, e não limitado. Que o evidente se desmembre em sutilezas, descame-se: nova serpente de Ouroboros.
[continua]
