Солярис

o convite era este:
o futuro, um grande inesperado
alguns dias de criação coletiva


por meio de um jogo, ana rüsche propôs um desafio: a invenção de uma engenhoca futuróloga. entre um chá e outro, a memória tornou-se a convidada principal. assim, pensei logo no tarô e em suas relações com a alquimia.

cosmologia compacta, num projétil: Solaris.
esse título, além de conter o sol, é também um filme de Andrej Tarkovski, baseado na ficção científica homônima, de Stanislaw Lem.


no dia 6.10, a primeira tarefa foi justamente ler o prefácio de um livro de ficção científica, de úrsula k. leguin. a autora mencionava extrapolação. isso ficou na minha cabeça, rodopiando. toda obra de arte é uma extrapolação, afinal. um mito que se condensa, se torna portátil. como um baralho do tarô. como um verso preciso ou uma frase que transborda do silêncio. pensei na rosa alquímica do yeats, em tanta coisa. e desenhei um itinerário, um projétil. o que se lança ao futuro e floresce, com as raízes mergulhadas no mito; pensei em skuld, que dividi em duas estrofes; no canto da musa afogada a criar lagos; na memória que se estende e nos conta, baixinho, de mistérios (arcanos).


começo com o Louco (zero), carta fora do baralho. persigo na Rota do Sol até entrar no Mundo (vinte e um). depois, o Louco retorna (vinte e dois), redimensionando o trajeto.


ah, sim. há dois tipos de louco: um cuja estrutura mental é tão fragmentada que pressente que pode ser a mosca ou o imperador, pode ser tudo. no entanto, ele não se constitui; logo, não chega a ser indivíduo. e existe aquele que extrapola a si mesmo. pressente que pode ser a mosca ou o imperador, então, cria uma hiper estrutura no próprio centro. torna-se a máquina lírica, a mola de todos os tempos, ainda que não fale do palanque (diria hilda hilst), mas do seu quarto ou ateliê.

pois bem, criei um microblog: http://twitter.com/maiaragouveia, e haverá surpresas interessantes por lá. muitas surpresas!

& criei um blog:
http://arosaoculta.blogspot.com/, em que você pode ler 23 poemas do Solaris.

darei notícias sobre tudo.

Solaris




Era o início de outubro, e o futuro, um grande inesperado, dispunha-se a brincar conosco, hóspede sem face, no jogo dos sete véus.

Comecei com a Úrsula K. Leguin. O certo e o duvidoso a misturar-se, e a forma de exceder o tempo, ficção.

Ou um livro aberto sobre o sofá: mistério em 4 estações.

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Carl Dreyer: mestre de mestres





Depois de ver A Palavra, chorei absurdamente, e não se trata de nenhum drama, porém, de uma revelação.

O Martírio de Joana D' Arc, por sua vez, tem a atuação de Reneé Falconetti, a atuação mais intensa, mais fantástica que eu já vi. Ela delira em cena. É de uma entrega que beira o sagrado.

Gertrud, sem dúvida, influenciou Bergman. E Lars von Trier, talvez o maior cineasta vivo, parece um principiante perto desse dinamarquês, seu precursor.

Portanto, estamos falando de um mestre de mestres.

Sim, mestre de Bergman, Tarkovsky e Lars von Trier, cineastas que formam a mesma corrente de preocupações éticas e estéticas.

Bergman e Tarkovsky, depois Lars von Trier. Assim eu vejo. E no topo: Carl Dreyer. O Lars tem a seu favor a extrema singularidade e um cérebro privilegiado, para o bem e para o mal de sua arte e de sua cabeça; Bergman consegue transformar uma cena simples em um grande acontecimento, sabe combinar texto e sutilezas visuais, sabe manejar a complexidade de uma reflexão com menos alarde do que o meu querido e admirado Trier;  Tarkovsky também depura a reflexão intelectual, tornando evidente o que existe de mais sublime em torno de nós. Mas Dreyer tem tudo isso, todo esse refinamento, e transcende tudo isso. Ele chegou em um ponto em que o processo contido na elaboração artística tornou-se um milagre.







Um milagre. Com essa brutal simplicidade, feita de filigranas e de grandeza. Essa voz nos toma inteiros, e não conseguimos pensar em mais nada durante um bom tempo, enquanto o filme desaparece na tela, e começa a agir lentamente, como se acordasse de um sonho, a multiplicar suas manhãs e noites dentro de nós.


Poucos artistas conseguiram ir tão fundo. Pensem nisso: ele supera os maiores. Os maiores. Então, tudo que eu disser, assim, tão envolvida, sobre o modo de lidar com a câmera; sobre a técnica usada com a gloriosa Falconetti; sobre o modo como ele dirigiu os atores, em Gertrud, para que não se olhem nos olhos; ou a respeito da música que se encadeia com o desespero progressivo de Joana, em seu filme icônico; ou, ainda, a respeito de como ele intensifica o aspecto sagrado por meio de um despojamento narrativo, em A Palavra; tudo o que eu disser sobre Johannes, sobre Kierkegaard, sobre relações entre cinema e teatro; tudo se tornará tão pálido como o espelho de uma sombra de um espelho.


Direi tudo o que sei. Não agora. O Martírio de Joanna D' Arc é um dos melhores filmes de todos os tempos. Perdão aos mais velhos, eu descobri a pólvora. E A Palavra é um dos melhores filmes de todos os tempos. Perdão aos mais velhos, eu descobri a pólvora.

Amém.